Apresentação

Prezados amigos,

A imagem nunca foi um objeto simples. Desde suas manifestações mais arcaicas – nas pinturas rupestres, nos ritos funerários, nas inscrições sagradas – até as mais contemporâneas – algoritmos generativos, projeções holográficas, simulações imersivas –, ela sempre habitou o limiar entre o visível e o invisível, entre o que se mostra e o que se oculta, entre o que se pode tocar e o que apenas se contempla.

O presente número da Imagens em Foco reúne pesquisas que, cada qual a seu modo, interrogam esse limiar. Abrimos com a contribuição de Vittorio Montis, cuja pesquisa nos conduz ao coração da liturgia cristã. Seu artigo reconhece na ação litúrgica um vínculo profundo com a presença e veneração da Síndone – o Sudário que, para a tradição, guarda a imagem impressa do corpo de Cristo. Desde os primeiros séculos até o rito romano anterior a 1962, Montis rastreia as festas da Paixão e da Ressurreição, com particular atenção ao drama litúrgico da Visitatio Sepulcri e à missa dedicada ao Santo Sudário. A imagem, aqui, não é mera representação: ela é presença litúrgica, inscrita no tempo sagrado que se celebra e se reatualiza. O que está em jogo não é apenas ver, mas reconhecer na imagem o traço de uma ausência que se faz presente – questão que, como veremos, ressoa em outros artigos deste número, ainda que por outras vias.

Ainda no âmbito dos estudos da linguagem, mas deslocando o foco do sagrado para o literário, Fernando Rodrigues da Costa nos oferece uma análise semiótica do conto "O Machete", de Machado de Assis. Seu exame percorre o percurso gerativo de sentido proposto por Greimas, mas não se detém na arquitetura formal: a análise se abre para as questões sociais, históricas e culturais que atravessam os signos do texto. Destacam-se, com particular fineza, as simbologias e nomenclaturas musicais – instrumentos, gêneros, ritmos, personagens – que se entrelaçam na trama machadiana. A imagem literária, aqui, é signo em movimento, que articula som, sentido e crítica social. Em sua segunda contribuição, o autor retoma o mesmo conto sob o prisma da relação entre música e literatura, aprofundando a percepção de como os signos sonoros se inscrevem na superfície do texto e organizam sua inteligibilidade afetiva e rítmica.

Aproximando-se da questão literária por outro ângulo, José Osmar de Melo examina o conto "Amor", de Clarice Lispector. Sua análise parte de uma questão fundamental: o que acontece quando o codificado (as certezas, os papéis sociais, a rotina do lar) se rompe diante do não-codificado (o imprevisível, o enigmático, o que escapa à norma)? A protagonista, ao se deparar com um cego que masca chiclete num ponto de ônibus, é assaltada por um incontrolável sentimento de estranhamento – uma epifania que lhe revela um mundo obscuro, perigoso e enigmático, que ela não conhecia. Dessa vertigem emergem susto, espanto, náusea, fascínio e repulsa. Suas ilusões sobre o casamento – frágil ideal de felicidade construído pela ideologia burguesa – desmoronam. Ela descobre que a existência ultrapassa a triste mesmice de sua condição de dona de casa. O que o artigo de Melo coloca em cena é precisamente o limiar entre o sentido estabilizado e sua dissolução – entre o que a personagem sabia (sua vida ordenada) e o que ela não pode nomear (a angústia, o desejo, o chamado de outro mundo possível). É nesse ponto que seu trabalho dialoga diretamente com a teoria que virá a seguir: a margem onde o sentido se tensiona e o enigma como fronteira da interpretação. 

Se Montis investiga a imagem litúrgica e Costa examina o signo literário em Machado, Melo desvela a angústia existencial em Clarice, Jack Brandão eleva a questão a um plano propriamente teórico. Seu artigo, inserido no quadro mais amplo da iconofotologia, propõe uma teoria do sentido na imagem a partir da distinção entre denotação e conotação – não como níveis separados, mas como tensões constitutivas. Desenvolve, então, a Escala de Brandão, um modelo dinâmico no qual a metáfora se organiza como movimento ascendente (condensação analógica) e a alegoria como movimento descendente (desdobramento narrativo). A escala é exemplificada em três domínios – verbal, fotográfico e cinematográfico – e articulada com os domínios material e imaterial da imagem. Ao final, o autor introduz dois conceitos limiares: a margem (onde o sentido se tensiona sem desaparecer) e o paramundo (onde a imagem já não significa, mas comparece como presença), situando o enigma como fronteira da interpretação. É precisamente esse limiar entre significação e presença que conecta seu trabalho ao de Montis – ainda que por caminhos radicalmente distintos.

Fechamos o percurso com Ismara Morais da Silva, que desloca o olhar para a história política do Brasil. Seu artigo examina o papel da Província do Rio Grande do Norte durante a Grande Seca (1877-1879), confrontando duas fontes: os relatórios presidenciais (o discurso oficial do governo) e o jornal Brado Conservador (a voz do povo que sofria as mazelas da seca). A imagem que emerge dessa confrontação é dupla: de um lado, a representação construída pelo império – seus gestos de socorro, sua retórica de amparo; de outro, a realidade experimentada pela população – a fome, o abandono, a seca como tragédia reiterada. A imagem, aqui, é documento e testemunho, mas também campo de disputa entre o que o poder diz e o que o corpo sente. A questão que seu artigo levanta – como as imagens oficiais ocultam tanto quanto mostram – ressoa com as investigações de Costa sobre os signos sociais inscritos na literatura machadiana, e com a própria reflexão de Brandão sobre a margem como lugar em que o sentido se retrai.

Se há um fio condutor que atravessa este número, ele talvez seja este: a imagem não é um objeto passivo de contemplação, mas uma força ativa que organiza a experiência – seja a experiência da fé (Montis), da leitura (Costa), da angústia existencial (Melo), da significação (Brandão) ou da memória histórica (Silva). As imagens aqui analisadas são muitas: o sudário que guarda o traço de um corpo ausente; as palavras de Machado que se tornam partitura; a fotografia que oscila entre denotação e conotação; o relatório presidencial que esconde tanto quanto mostra; o jornal que dá voz a quem o poder cala. O que une essas pesquisas é a convicção de que toda imagem é, antes de qualquer classificação, um modo de presença – e que é somente a partir dessa presença que o sentido, quando e onde ele se faz possível, pode emergir como travessia.

Agradecemos aos autores e às autoras por suas contribuições, e aos leitores e às leitoras pela atenção que dedicarão a estas páginas. Que as imagens aqui convocadas – as que iluminam, as que inquietam, as que resistem – continuem a ressoar muito depois da leitura.

Saudações acadêmicas!

Prof. Dr. Jack Brandão