Prezados amigos,
A presente edição da Imagens em Foco reúne cinco pesquisas que, partindo de objetos e questões distintas, convergem para um mesmo pressuposto fundamental: a imagem não é um espelho do real, mas um dispositivo ativo de fabricação de mundos, memórias e subjetividades. Esse pressuposto encontra sua expressão mais sistemática na iconofotologia, método que atravessa este número como seu eixo teórico estruturante
- ora como objeto explícito de reflexão, ora como operador crítico implícito nas análises.
Aryana Vicente de Sousa abre o volume com uma contribuição que funciona como verdadeira pedra angular do conjunto. Ao retomar a tradição panofskiana e confrontá-la com a proposta iconofotológica de Jack Brandão, Sousa demonstra que a leitura de imagens exige, hoje, mais do que erudição histórica: exige vigilância sobre os regimes de fabricação da presença e sensibilidade às extemporaneidades que tornam obscuro o sentido original das imagens. Seu artigo não é um manual, mas uma defesa contundente de que todo olhar crítico deve operar simultaneamente nos planos da materialidade técnica, da historicidade e da pragmática política da imagem.
Essa ferramenta metodológica ganha aplicação imediata no ensaio de Jack Brandão, que analisa
The Boys à luz da própria escala que desenvolveu. Para Brandão, a violência hiperbólica da série não é espetáculo gratuito, mas uma operação de desnaturalização que escancara os mecanismos ocultos do poder. Ao mapear a ascensão do Capitão Pátria como figura messiânica e ao tratar Tempesta como sobrevivência imagética do fascismo, o autor sustenta que o verdadeiro objeto da série não é a fabricação da mentira, mas a fabricação da presença
- a substituição do transcendente por uma imagem de poder intramundano que nos vincula afetivamente a regimes de crença. A presença, aqui, é o nome daquilo que as imagens produzem quando deixam de representar para, antes, instituir realidades.
Em diálogo direto com essa perspectiva, Larissa Fontenelle Gontijo expande o escopo para o campo da fotoliteratura. Ao propor uma tipologia das funções da fotografia
- documental, ilustrativa, estética, literária e autoficcional
- a partir da obra de Sophie Calle, Gontijo mostra que a imagem, em sintonia com o texto, não se limita a ilustrar ou testemunhar: ela estrutura efeitos de realidade, constrói ficções e encena subjetividades.
Complementarmente, Marcos C. P. Soares conduz essa mesma inquirição para o terreno mais árduo do arquivo histórico traumático. Em sua leitura do documentário
A saída dos trens, de Radu Jude, Soares investiga como a fotografia de arquivo, quando lida contra a corrente da abstração estatística, pode restituir a singularidade das vítimas do massacre de Iași. Apoiado em Barthes, Benjamin e Debord, o autor revela que o gesto de montagem crítica operado por Jude transforma o arquivo morto em instrumento de memória viva e de resistência ao esquecimento. O que está em jogo aqui é a presença soterrada — aquela que a burocracia genocida procurou reduzir a número e que o cinema, por meio da imagem fotográfica, teima em fazer retornar como rosto e como nome.
Roberto Nascimento, por fim, fecha o percurso ampliando a reflexão para o cinema de autor e a figuração dos traumas subjetivos. Ao analisar
Europa, Manderlay e
Ninfomaníaca, de Lars von Trier, Nascimento mostra como a encenação, a iluminação e a performance corporal tornam visíveis as contradições históricas da modernidade
- a Segunda Guerra, o liberalismo estadunidense e a ordem produtivista que adoece os corpos. Seu procedimento é profundamente iconofotológico ainda que não o nomeie: ele lê a materialidade da imagem fílmica como cifra dos impasses de uma época, costurando o político ao íntimo e o histórico ao corporal.
O que costura esses cinco trabalhos é a recusa compartilhada de três reducionismos que ainda assombram os estudos de imagem: a redução da imagem a mero signo autônomo
ou a redução da imagem a mero reflexo de estruturas externas e a pura experiência afetiva desprovida de mediações.
Saudações acadêmicas!
Prof. Dr. Jack Brandão
